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Data Centers: a infraestrutura invisível por trás da corrida global pela IA

Foto do escritor: Diogo Mazetto
Diogo Mazetto
4 de set.
7 min de leitura

A IA deixou de ser apenas uma corrida por software


O recurso mais disputado agora é físico: chips, energia, refrigeração, transmissão e espaço disponível em data centers.


Caro leitor,


O avanço da inteligência artificial está mudando a forma como o setor de tecnologia cresce. Modelos mais complexos precisam de mais chips, mais servidores, mais eletricidade e sistemas de refrigeração mais potentes. Com isso, energia, ligação à rede e capacidade de construção passaram a ser fatores centrais para novos projetos.


A Agência Internacional de Energia estima que os data centers consumiram cerca de 415 TWh de eletricidade em 2024 e 485 TWh em 2025. Na projeção central, o consumo pode chegar a aproximadamente 950 TWh em 2030, quase o dobro do nível de 2025.


Estados Unidos e China respondiam juntos por aproximadamente 70% do consumo global de eletricidade dos data centers em 2024. Essa concentração ajuda a explicar por que a disputa por inteligência artificial passou a envolver também energia, rede elétrica e capacidade física.


ESTADOS UNIDOS


O mercado mais desenvolvido também mostra com clareza onde está o limite


Muito capital e grandes empresas de tecnologia convivem com pouco espaço disponível e uma disputa crescente por energia.


Nos Estados Unidos, os principais mercados de data centers somavam 10,9 GW de capacidade no primeiro semestre de 2026. Desse total, 7,48 GW estavam em construção e o espaço disponível era de apenas 1,4%, segundo a CBRE.


O volume de investimento acompanha essa pressão. A Amazon anunciou cerca de US$ 200 bilhões de investimentos em 2026, em grande parte ligados à inteligência artificial. A Alphabet indicou US$ 195 bilhões a US$ 205 bilhões, enquanto a Meta apontou mais de US$ 130 bilhões em infraestrutura e computação.


A restrição deixou de ser apenas financeira e passou a ser física. O Departamento de Energia dos Estados Unidos estima que data centers consumiam 4,4% da eletricidade do país em 2023 e podem chegar a uma faixa de 6,7% a 12% em 2028.


Nos Estados Unidos, pedidos de ligação de grandes consumidores à rede elétrica superam 700 GW. Esse volume não representa capacidade garantida, porque parte dos projetos pode não ser construída. Para investidores, o que importa é ter energia disponível, ligação aprovada e um cronograma que possa ser cumprido.


Isso afeta diretamente o valor dos ativos. Projetos que já têm energia contratada e uma data clara para ligação à rede tendem a ser mais valiosos. Projetos que ainda dependem de obras, licenças ou novas linhas de transmissão carregam maior risco de atraso.


CHINA


Planejamento nacional leva capacidade de processamento para regiões com mais energia disponível


A resposta chinesa combina planejamento do governo, grandes centros de processamento e uma tentativa de reduzir a dependência de tecnologia estrangeira.


A China é o segundo maior mercado de data centers em consumo de energia. A Agência Internacional de Energia estima que o país respondia por aproximadamente 25% do consumo global do setor em 2024, acima de 100 TWh. Até 2030, esse consumo pode crescer cerca de 70%.


O programa chinês conhecido como “Dados do Leste, Processamento no Oeste” organiza oito centros nacionais e dez grandes áreas de data centers. A ideia é ligar a demanda digital das regiões mais povoadas do leste à oferta de energia e espaço físico no oeste do país.


A iniciativa privada também investe em grande escala. A Alibaba anunciou mais de RMB 380 bilhões para serviços digitais e infraestrutura de inteligência artificial ao longo de três anos. A Tencent, após investir RMB 79 bilhões em 2025, indicou nova aceleração dos investimentos em 2026.


Apesar do crescimento de eólica, solar e nuclear, a eletricidade usada pelos data centers chineses ainda é majoritariamente ligada ao carvão. A política pública tenta levar novos centros para regiões com mais energia renovável e aumentar o uso de eletricidade de baixa emissão.


Nos Estados Unidos, empresas privadas procuram energia onde ela está disponível. Na China, o governo ajuda a definir onde grandes centros de processamento serão instalados. Os dois modelos mostram que a disputa deixou de ser apenas por tecnologia e passou a incluir energia e infraestrutura.


BRASIL


De polo regional de serviços digitais a possível plataforma internacional de processamento.


O país ainda é menor que Estados Unidos e China, mas reúne crescimento rápido, energia renovável e uma nova agenda de incentivos.


O Brasil entrou em 2026 em um ponto de mudança. A JLL projeta 240 MW de novas entregas de capacidade ao longo do ano, sendo 106 MW já entregues no primeiro semestre e mais 134 MW previstos até dezembro. A consultoria associa cerca de US$ 8 bilhões em investimentos a essas entregas e mapeia 4.621 MW de projetos em diferentes estágios.


São Paulo continua sendo o principal polo brasileiro de conexão e serviços digitais. A CBRE registrou 536,7 MW de capacidade instalada em grande escala no primeiro trimestre de 2026, o maior mercado da América Latina. No Ceará, Fortaleza e Pecém combinam energia renovável, cabos submarinos e espaço para projetos maiores.


Dois projetos mostram a escala que essa oportunidade pode alcançar. A Omnia, plataforma de data centers do Pátria, fechou com a Casa dos Ventos um contrato de aproximadamente US$ 2 bilhões para fornecer energia renovável ao projeto da ByteDance no Pecém. A Voltalia também obteve aprovação para um data center de 322,5 MW na região, com investimento anunciado de R$ 181,7 bilhões.


REDATA: aprovado pelo Senado em 1º de setembro de 2026. O PL 278/2026 prevê cinco anos de suspensão de Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e IPI para equipamentos elegíveis. Entre as contrapartidas está o uso de energia renovável ou de baixa emissão. Em 2 de setembro, o texto seguia para sanção presidencial. A estimativa oficial de renúncia é de R$ 5,2 bilhões em 2026 e R$ 1,0 bilhão em cada um dos dois anos seguintes.


O principal diferencial estrutural do Brasil é a matriz elétrica. Em 2025, 86,8% da oferta de eletricidade veio de fontes renováveis. Esse ponto ganhou ainda mais relevância porque o REDATA condiciona parte dos benefícios ao uso de energia renovável ou de baixa emissão.


A carga de data centers já entrou no planejamento elétrico brasileiro. Em estudo da EPE, a nova carga ligada à rede básica crescia a uma taxa projetada de cerca de 17% ao ano entre 2025 e 2029. O Ministério de Minas e Energia monitorava pedidos que poderiam somar 20,9 GW até 2038, mas esses pedidos estão em diferentes estágios e não equivalem a capacidade contratada.


FUSÕES E AQUISIÇÕES


A corrida por IA está mudando onde o valor se concentra


Quando energia e infraestrutura ficam escassas, os compradores também mudam de alvo.


A cadeia de valor da inteligência artificial está ficando mais ampla. Além dos próprios data centers, ganham importância empresas de equipamentos elétricos, transformadores, refrigeração, geração renovável, armazenamento de energia, fibra e conexão de rede.


Em 2 de setembro, a Vertiv anunciou a compra da UtilityInnovation Group por US$ 1,45 bilhão em dinheiro, com possibilidade de pagamento adicional de até US$ 1,15 bilhão se metas forem atingidas. O preço inicial equivale a cerca de 13 vezes o resultado operacional esperado da empresa para 2027.


A Digital Realty acordou pagar US$ 3,5 bilhões pela participação da Blackstone em três data centers totalmente locados no norte da Virgínia. Os ativos foram avaliados em US$ 7,8 bilhões e somam 288 MW de capacidade de tecnologia da informação.


A I Squared Capital comprou dez instalações da Cogent por US$ 225 milhões e anunciou mais US$ 1 bilhão para expansão e novas aquisições. O objetivo é usar essas instalações como base para uma nova plataforma de data centers nos Estados Unidos.


Capacidade realmente disponível: quantos megawatts podem ser entregues ao cliente no prazo.

Prazo para receber energia: data prevista para a ligação à rede e risco de atraso.

Eficiência: quanta energia é consumida pelos servidores e pelos sistemas de refrigeração.

Contratos: duração, qualidade dos clientes e nível de ocupação já contratado.

Custo de energia: preço, origem da geração e estabilidade do contrato de fornecimento.

Investimento por megawatt: quanto custa construir a próxima unidade e colocá-la em operação.

Leitura Pacta Partners: em data centers, olhar apenas para receita e resultado operacional não basta. É preciso avaliar energia disponível, prazo de ligação à rede, custo de construção e qualidade dos contratos.


VISÃO COMPARATIVA


Três mercados, três formas de resolver o mesmo problema


A pergunta central não é quem “tem mais IA”, mas quem consegue transformar investimento em capacidade de processamento disponível, confiável e competitiva.


Estados Unidos, maior mercado privado, com forte presença das grandes empresas de tecnologia. A principal vantagem é a combinação de capital, demanda e operadores experientes. O maior limite hoje é conseguir energia e ligação à rede no prazo.


China, segundo maior mercado, com expansão coordenada por política industrial. O planejamento nacional facilita a escolha de regiões com energia e espaço, mas o país ainda enfrenta dependência de chips avançados e forte uso de carvão.


Brasil, maior mercado da América Latina e ainda em aceleração. A principal vantagem é a matriz elétrica renovável, somada a território e cabos submarinos. Os desafios são transmissão, equipamentos importados, custo de capital e execução dos projetos.


Síntese analítica Pacta Partners com base nas fontes e dados apresentados nesta edição.

Para o Brasil, a oportunidade existe, mas não é automática. Energia renovável só vira vantagem quando chega ao projeto com segurança, conexão à rede, contratos de longo prazo, fibra e equipamentos disponíveis.


Para investidores, esse ciclo se parece menos com a expansão tradicional de software e mais com uma nova onda de infraestrutura pesada. Isso aumenta a importância de financiamento de projetos, contratos de compra de energia de longo prazo, parcerias entre empresas e fundos especializados em infraestrutura.


Tese central: o megawatt entrou na avaliação dos ativos. Na próxima fase da IA, empresas capazes de garantir energia, refrigeração, conexão e capacidade operacional no prazo tendem a capturar mais valor. Para o Brasil, o desafio é transformar uma matriz elétrica favorável em projetos realmente prontos para operar.


Pacta Partners 

Curitiba — Paraná | Barcelona — Espanha

 
 
 

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